sábado, 24 de novembro de 2007
SCT 2007 - Tertúlia on-line VII
Poema do eterno retorno
Se não houvesse mais nada
(mesmo mais nada)
senão átomos,
se a mesma causa desse sempre o mesmo efeito
e para o mesmo efeito houvesse sempre a mesma causa,
então o meu salgueiro
havia um dia de ressuscitar.
Se não houvesse mais nada
(mesmo mais nada)
senão átomos,
eu próprio,
na efemeridade eternamente repetida
deste momento de agora,
tornaria a rever o meu salgueiro.
Se não houvesse mais nada
(mesmo mais nada)
senão átomos,
os milhões de milhões de milhões de átomos
que compõem os milhões de milhões de milhões de galáxias
dispostos de milhões de milhões de milhões de maneiras diferentes,
teriam forçosamente de repetir,
daqui a milhões de milhões de milhões de séculos,
exactíssimamente a mesma posição que agora têm.
E então,
nesse dia infinitamente longínquo mas finitamente próximo,
eu, Fulano de Tal,
Filho legítimo de Fulano de Tal e de Dona Fulana de Tal,
nascido e baptizado na freguesia de Tal,
a tantos de Tal,
neto paterno de Fulanos de Tal,
e materno de Tal e Tal,
etc. e tal,
se não houvesse mais nada
(mesmo mais nada)
senão átomos,
encontrar-me-ia no mesmo ponto do mesmo Universo
a olhar parvamente para o meu salgueiro.
Isto, é claro,
se não houvesse mais nada
(mesmo mais nada)
senão átomos.
in Novos Poemas Póstumos (1990)
sexta-feira, 23 de novembro de 2007
Notícia sobre sistema de alerta para Tsunamis
21.11.2007 - 18h05 Lusa
Os países da Europa e da bacia mediterrânica deverão ter em funcionamento já no próximo ano um sistema que permite alertar as populações em caso de tsunami pelo menos meia hora antes de as primeiras ondas darem à costa.
"É um sistema que ninguém nota, em que ninguém pensa e às vezes os governos consideram que não vale a pena investir dinheiro nestas matérias porque só se pode medir a sua importância nos momentos críticos e esses momentos críticos, no caso dos tsunamis, vão entre 20 minutos e algumas horas", disse Mário Ruivo, presidente do Comité Português para a Comissão Oceanográfica Intergovernamental (COI).
Mário Ruivo falava à margem da quarta sessão do Grupo de Coordenação Intergovernamental (ICG), que até sexta-feira reúne em Lisboa especialistas internacionais para definir o Sistema de Alerta Precoce de Tsunamis para o Atlântico Nordeste, Mediterrâneo e mares conexos (NEAMTWS).
O NEAMTWS deverá alertar as autoridades dos países do Atlântico Nordeste e Mediterrâneo em caso de ocorrência de um tsunami e é realizado no âmbito da COI, organismo da UNESCO responsável pela ciência do mar e serviços oceanográficos, que tem um secretariado-geral.
O plano de funcionamento para o futuro NEAMTWS que os vários grupos de trabalho discutem em Lisboa deverá ser aprovado em Dezembro no conselho de ministros da presidência portuguesa da União Europeia.
"A ideia é que no fim deste ano o embrião do sistema esteja estruturado, para que o esboço do que vai ser feito esteja já em funcionamento no início do próximo ano, e a partir daí construir progressivamente um sistema mais eficaz para funcionar em pleno em 2011", disse Mário Ruivo.
Se os trabalhos correrem como previsto, no próximo ano o sistema deverá permitir que, em caso de maremoto causado por um sismo de grande dimensão, as autoridades consigam avisar as populações costeiras 30 minutos antes da chegada das primeiras ondas. Em 2011, quando funcionar em pleno, o sistema permitirá alertar em menos de 10 minutos após a geração do maremoto. O sistema funcionará em rede 24 sobre 24 horas, com centros em cada um dos 23 países actualmente envolvidos, e será coordenado pelo COI.
Na prática, se houver um alerta que seja considerado válido, por exemplo, no Mediterrâneo, o centro regional que analisa todas as mensagens tem a responsabilidade de, através da competência e análise dos seus técnicos, considerar que determinado tsunami é a sério e de o comunicar imediatamente às autoridades de todos os Governos envolvidos, no caso português a Protecção Civil.
O presidente do ICG/NEAMTWS, o italiano Stefano Tinti, salientou a importância da coordenação de esforços ao nível dos governos, que nem sempre consideram uma prioridade este tipo de investimento.
"O nosso objectivo é nos próximos dois anos criar realmente um sistema de base operacional envolvendo pelo menos a maioria, se não a totalidade, dos países do mediterrâneo e do norte da Europa, incluindo países do Norte de África e da Ásia, onde já existe um sistema de alerta na sequência do recente tsunami", realçou.
Países desmotivados
Stefano Tinti admitiu que alguns países da Europa central não estão motivados para o sistema por terem pouca zona costeira, mas Mário Ruivo salienta que os mesmos sistemas que detectam maremotos permitem também avisar para outros riscos. "Por exemplo, o elemento inicial do sistema para os tsunamis é o sistema de alerta e observação sísmico, que é de interesse geral", salientou.
"É preciso perceber que até países como a Finlândia têm um problema de tsunamis, não porque tenham uma costa, mas porque os seus turistas em Espanha estão ameaçados e porque os seus investimentos em Portugal estão ameaçados", realçou Peter Koltermann, responsável no COI pelo apoio aos vários grupos intergovernamentais dentro do sistema de alerta aos tsunamis.
Koltermann salientou que coordenar todos estes países com diferentes prioridades só é possível porque todos concordaram em atingir objectivos muito simples, como "salvar vidas e proteger a economia dos perigos dos tsunamis ou outras ocorrências oceânicas, criar mecanismos para tomar decisões que têm de ser postas em prática pelos Governos e ter as mesmas regras e standards".
"Se concordarmos nos mesmos objectivos e tivermos as mesmas estruturas podemos discutir com os membros em particular como é que eles vão resolver e analisar um problema e então há todo um trabalho a desenvolver para organizar meios e sobretudo educar pessoas", concluiu.
"A formação da opinião pública é fundamental, para que cada cidadão tenha a consciência deste e de outros riscos e saber como agir em caso de tsunami", acrescentou Mário Ruivo, considerando fundamentais medidas preventivas como "uma gestão ordenada da zona costeira e incorporar nos currículos escolares desde a instrução primária uma sensibilização dos jovens e da população para o risco e maneira de agir".
in Público - ver notícia
Quanta Vida por descobrir - Escorpião com mais de 2,5 metros
Um escorpião marinho (Eurypterida) fossilizado com mais de 2,5 m foi descoberto em Prüm, no oeste da Alemanha. Este mega escorpião viveu há 390 milhões, numa época em que os insectos, aranhas e crustáceos tinham tamanhos gigantescos.
O “recém-baptizado” Jaekelopterus rhenaniae apresentava pinças com 46 cm de comprimento, o dobro das maiores até hoje encontradas.
Já se conheciam outros gigantes, como libélulas, baratas e centopeias, mas esta descoberta confirmou que antes dos dinossáurios, existiu outra época de gigantes.
Com base nos fósseis encontrado calculou-se que este escorpião teria pesado 180 kg.
Em Portugal há registo de escorpiões marinhos do Ordovícico da Serra do Buçaco - Dithyrocaris longicauda.
Os euripterídeos são artrópodes quelicerados e grupo irmão de Arachnida e os seus parentes mais próximos são os escorpiões e aranhas.
A descoberta foi publicada a 21 de Novembro na revista científica Biology Letters (DOI: 10.1098/rsbl.2007.0491).
Post roubado ao Blog Ciência ao Natural, de Luís Azevedo Rodrigues.
SCT 2007 - Tertúlia on-line VI
Lição sobre a água
Este líquido é água.
Quando pura
é inodora, insípida e incolor.
Reduzida a vapor,
sob tensão e a alta temperatura,
move os êmbolos das máquinas que, por isso,
se denominam máquinas de vapor.
É um bom dissolvente.
Embora com excepções mas de um modo geral,
dissolve tudo bem, bases e sais.
Congela a zero graus centesimais
e ferve a 100, quando à pressão normal.
Foi neste líquido que numa noite cálida de Verão,
sob um luar gomoso e branco de camélia,
apareceu a boiar o cadáver de Ofélia
com um nenúfar na mão.
in Linhas de Força - António Gedeão
quarta-feira, 21 de novembro de 2007
SCT 2007 - Tertúlia on-line V
Niels Armstrong pôs os pés na Lua
e a Humanidade saudou nele
o Homem Novo.
No calendário da História sublinhou-se
com espesso traço o memorável feito.
Tudo nele era novo.
Vestia quinze fatos sobrepostos.
Primeiro, sobre a pele, cobrindo-o de alto a baixo,
um colante poroso de rede tricotada
para ventilação e temperatura próprias.
Logo após, outros fatos, e outros e mais outros,
catorze, no total,
de película de nylon
e borracha sintética.
Envolvendo o conjunto, do tronco até aos pés,
na cabeça e nos braços,
confusíssima trama de canais
para circulação dos fluidos necessários,
da água e do oxigénio.
A cobrir tudo, enfim, como um balão ao vento,
um envólucro soprado de tela de alumínio.
Capacete de rosca, de especial fibra de vidro,
auscultadores e microfones,
e, nas mãos penduradas, tentáculos programados,
luvas com luz nos dedos.
Numa cama de rede, pendurada
das paredes do módulo,
na majestade augusta do silêncio,
dormia o Homem Novo a caminho da Lua.
Cá de longe, na Terra, num borborinho ansioso,
bocas de espanto e olhos de humidade,
todos se interpelavam e falava,
do Homem Novo,
do Homem Novo,
do Homem Novo.
Sobre a Lua, Armstrong pôs finalmente os pés.
caminhava hesitante e cauteloso,
pé aqui,
pé ali,
as pernas afastadas,
os braços insuflados como balões pneumáticos,
o tronco debruçado sobre o solo.
Lá vai ele.
Lá vai o Homem Novo
medindo e calculando cada passo,
puxando pelo corpo como bloco emperrado.
Mais um passo.
Mais outro.
Num sobre-humano esforço
levanta a mão sapuda e qualquer coisa nela.
com redobrado alento avança mais um passo,
e a Humanidade inteira, com o coração pequeno e ressequido
viu, com os olhos que a terra há-de comer,
o Homem Novo espetar, no chão poeirento da Lua, a bandeira da sua Pátria,
exactamente como faria o Homem Velho.
in Novos Poemas Póstumos (1990)
SCT 2007 - Tertúlia on-line IV
Poema para Galileo
Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,
aquele teu retrato que toda a gente conhece,
em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce
sobre um modesto cabeção de pano.
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
(Não, não, Galileo! Eu não disse Santo Ofício.
Disse Galeria dos Ofícios.)
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.
Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria…
Eu sei… eu sei…
As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.
Ai que saudade, Galileo Galilei!
Olha. Sabes? Lá em Florença
está guardado um dedo da tua mão direita num relicário.
Palavra de honra que está!
As voltas que o mundo dá!
Se calhar até há gente que pensa
que entraste no calendário.
Eu queria agradecer-te, Galileo,
a inteligência das coisas que me deste.
Eu,
e quantos milhões de homens como eu
a quem tu esclareceste,
ia jurar- que disparate, Galileo!
- e jurava a pés juntos e apostava a cabeça
sem a menor hesitação-
que os corpos caem tanto mais depressa
quanto mais pesados são.
Pois não é evidente, Galileo?
Quem acredita que um penedo caia
com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo da praia?
Esta era a inteligência que Deus nos deu.
Estava agora a lembrar-me, Galileo,
daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo
e tinhas à tua frente
um friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo
a olharem-te severamente.
Estavam todos a ralhar contigo,
que parecia impossível que um homem da tua idade
e da tua condição,
se tivesse tornado num perigo
para a Humanidade
e para a Civilização.
Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios,
e percorrias, cheio de piedade,
os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.
Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas,
desceram lá das suas alturas
e poisaram, como aves aturdidas- parece-me que estou a vê-las -,
nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.
E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual
conforme suas eminências desejavam,
e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite louvores à harmonia universal.
E juraste que nunca mais repetirias
nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma,
aquelas abomináveis heresias
que ensinavas e descrevias
para eterna perdição da tua alma.
Ai Galileo!
Mal sabem os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo
que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,
andavam a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilómetros por segundo.
Tu é que sabias, Galileo Galilei.
Por isso eram teus olhos misericordiosos,
por isso era teu coração cheio de piedade,
piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos
a quem Deus dispensou de buscar a verdade.
Por isso estoicamente, mansamente,
resististe a todas as torturas,
a todas as angústias, a todos os contratempos,
enquanto eles, do alto incessível das suas alturas,
foram caindo,
caindo,
caindo,
caindo,
caindo sempre,
e sempre,
ininterruptamente,
na razão directa do quadrado dos tempos.
terça-feira, 20 de novembro de 2007
Semana da Ciência e Tecnologia 2007 - Tertúlia on-line II
(Lisboa, 24.11.1906 - Lisboa, 17.02.1997)

Filho de um funcionário dos correios e telégrafos e de uma dona de casa, Rómulo Vasco da Gama de Carvalho nasceu a 24 de Novembro de 1906 na lisboeta freguesia da Sé. Aí cresceu, juntamente com as irmãs, numa casa modesta da rua do Arco do Limoeiro (hoje rua Augusto Rosa), no seio de um ambiente familiar tranquilo, profundamente marcado pela figura materna, cuja influência foi decisiva para a sua vida.
Criança precoce, aos 5 anos escreve os primeiros poemas e aos 10 decide completar "Os Lusíadas" de Camões. No entanto, a par desta inclinação flagrante para as letras, quando, ao entrar para o liceu Gil Vicente, toma pela primeira vez contacto com as ciências, desperta nele um novo interesse, que se vai intensificando com o passar dos anos e se torna predominante no seu último ano de liceu.
Este factor será decisivo para a escolha do caminho a tomar no ano seguinte, aquando da entrada na Universidade, pois, embora a literatura o tenha acompanhado durante toda a sua vida, não se mostrava a melhor escolha para quem, além de procurar estabilidade, era extremamente pragmático e se sentia atraído pelas ciências justamente pelo seu lado experimental. Desta forma, a escolha da área das ciências, apesar de não ter sido fácil, dá-se.
E assim, enquanto Rómulo de Carvalho estuda Ciências Fisico-Químicas na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, as palavras ficam guardadas para quando, mais tarde, surgir alguém que dará pelo nome de António Gedeão.
Em 1932, um ano depois de se ter licenciado, forma-se em ciências pedagógicas na faculdade de letras da cidade invicta, prenunciando assim qual será a sua actividade principal daí para a frente e durante 40 anos - professor e pedagogo.
Começando por estagiar no Liceu Pedro Nunes e ensinar durante 14 anos no Liceu Camões, Rómulo de Carvalho é, depois, convidado a ir leccionar para o liceu D. João III, em Coimbra, permanecendo aí até, passados oito anos, regressar a Lisboa, convidado para professor metodólogo do grupo de Físico-Químicas do Liceu Pedro Nunes.
Exigente, comunicador por excelência, para Rómulo de Carvalho ensinar era uma paixão. Tal como afirmava sem hesitar, ser Professor tem de ser uma paixão - pode ser uma paixão fria mas tem de ser uma paixão. Uma dedicação. E assim, além da colaboração como co-director da "Gazeta de Física" a partir de 1946, concentra, durante muitos anos, os seus esforços no ensino, dedicando-se, inclusivé, à elaboração de compêndios escolares, inovadores pelo grafismo e forma de abordar matérias tão complexas como a física e a química. Dedicação estendida, a partir de 1952, à difusão científica a um nível mais amplo através da colecção Ciência Para Gente Nova e muitos outros títulos, entre os quais Física para o Povo, cujas edições acompanham os leigos interessados pela ciência até meados da década de 1970. A divulgação científica surge como puro prazer - agrada-lhe comunicar, por escrito e com um carácter mais amplo, aquilo que, enquanto professor, comunicava pela palavra.
A dedicação à ciência e à sua divulgação e história não fica por aqui, sendo uma constante durante toda a sua a vida. De facto, Rómulo de Carvalho não parou de trabalhar até ao fim dos seus dias, deixando, inclusive trabalhos concluídos, mas por publicar, que por certo vêm engrandecer, ainda mais, a sua extensa obra científica.
Apesar da intensa actividade científica, Rómulo de Carvalho não esquece a arte das palavras e continua, sempre, a escrever poesia. Porém, não a considerando de qualidade e pensando que nunca será útil a ninguém, nunca tenta publicá-la, preferindo destruí-la.
Só em 1956, após ter participado num concurso de poesia de que tomou conhecimento no jornal, publica, aos 50 anos, o primeiro livro de poemas Movimento Perpétuo. No entanto, o livro surge como tendo sido escrito por outro, António Gedeão, e o professor de física e química, Rómulo de Carvalho, permanece no anonimato a que se votou.
O livro é bem recebido pela crítica e António Gedeão continua a publicar poesia, aventurando-se, anos mais tarde, no teatro e,depois, no ensaio e na ficção.
A obra de Gedeão é um enigma para os críticos, pois além de surgir, estranhamente, só quando o seu autor tem 50 anos de idade, não se enquadra claramente em qualquer movimento literário. Contudo o seu enquadramento geracional leva-o a preocupar-se com os problemas comuns da sociedade portuguesa, da época.
Nos seus poemas dá-se uma simbiose perfeita entre a ciência e a poesia, a vida e o sonho, a lucidez e a esperança. Aí reside a sua originalidade, difícil de catalogar, originada por uma vida em que sempre coexistiram dois interesses totalmente distintos, mas que, para Rómulo de Carvalho e para o seu "amigo" Gedeão, provinham da mesma fonte e completavam-se mutuamente.
A poesia de Gedeão é, realmente, comunicativa e marca toda uma geração que, reprimida por um regime ditatorial e atormentada por uma guerra, cujo fim não se adivinhava, se sentia profundamente tocada pelos valores expressos pelo poeta e assim se atrevia a acreditar que, através do sonho, era possível encontrar o caminho para a liberdade. É deste modo que "Pedra Filosofal", musicada por Manuel Freire, se torna num hino à liberdade e ao sonho.E, mais tarde, em 1972, José Nisa compõe doze músicas com base em poemas de Gedeão e produz o álbum "Fala do Homem Nascido".
O professor Rómulo de Carvalho, entretanto,após 40 anos de ensino,em 1974, motivado em parte pela desorganização e falta de autoridade que depois do 25 de Abril tomou conta do ensino em Portugal decide reformar-se. Exigente e rigoroso, não se conforma com a situação. Nessa altura é convidado para leccionar na Universidade mas declina o convite.
Incapaz de ficar parado, nos anos seguintes dedica-se por inteiro à investigação publicando numerosos livros, tanto de divulgação científica, como de história da ciência. Gedeão também continua a sonhar, mas o fim aproxima-se e o desejo da morrer determina, em 1984, a publicação de Poemas Póstumos.
Em 1990, já com 83 anos, Rómulo de Carvalho assume a direcção do Museu Maynense da Academia das Ciências de Lisboa, sete anos depois de se ter tornado sócio correspondente da Academia de Ciências, função que desempenhará até ao fim dos seus dias.
Quando completa 90 anos de idade, a sua vida é alvo de uma homenagem a nível nacional. O professor, investigador, pedagogo e historiador da ciência, bem como o poeta, é reconhecido publicamente por personalidades da política, da ciência, das letras e da música.
Infelizmente, a 19 de Fevereiro de 1997 a morte leva-nos Rómulo de Carvalho. Gedeão, esse já tinha morrido alguns anos antes, aquando da publicação de Poemas Póstumos e Novos Poemas Póstumos.
Avesso a mostrar-se, recolhido, discreto, muito calmo, mas ao mesmo tempo algo distante, homem de saberes múltiplos e de humor subtil, Rómulo de Carvalho que nunca teve pressa, mas em vida tanto fez, deixa, em morte, uma saudade imensa da parte de todos quantos o conheceram e à sua obra.
segunda-feira, 19 de novembro de 2007
Semana da Ciência e Tecnologia 2007 - Tertúlia on-line I
Tertúlia On-Line de Comemoração da Semana da Ciência e Tecnologia e do Aniversário do Nascimento de Rómulo de Carvalho
Na semana em que se comemoram os 101 anos do nascimento de Rómulo Vasco da Gama de Carvalho, nome do cientista e pedagogo também conhecido pelo pseudónimo literário de António Gedeão, o Blog associa-se às comemorações da Semana da Ciência e Tecnologia e do Dia Nacional da Cultura Científica, promovidas pela Ciência Viva, através da divulgação de alguma poesia deste autor.
Pedra filosofal
Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.
Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.
Eles não sabem que o sonho
É tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral
pináculo de catedral
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo de Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Columbina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.
Eles não sabem nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.
in Movimento Perpétuo, 1956
Semana da Ciência e da Tecnologia - Actividade do nosso Blog
Tertúlia On-Line de Comemoração da Semana da Ciência e Tecnologia e do Aniversário do Nascimento de Rómulo de Carvalho
Ficamos à espera de mais adesões...
Observação Astronómica - ADIADA
A actividade de hoje (Observação Astronómica, no âmbito da Semana da Ciência e Tecnologia) foi anulada, pelo mau tempo (chuva, chuva e mais chuva...).
Uma outra observação será feita noutra data em substituição desta - então obrigadinho, ó S. Pedro...
sábado, 17 de novembro de 2007
Dia Nacional do Não Fumador
Não fumar é que está na moda!
Os jovens portugueses estão mais saudáveis: no último ano diminuiu o número de jovens fumadores!
Para saberes mais vai a:
http:/cardiologia.browser.pt
sexta-feira, 16 de novembro de 2007
Observação Astronómica - 19.05.2007
Assim estão desde já convidados para a observação astronómica, a realizar em 19.11.2007 (2ª-feira) na Escola Correia Mateus em Leiria, entre as 21.00 e as 24.00 horas. Não é preciso inscreverem-se, basta trazerem roupa quente (gorro, cachecol, luvas e roupa interior...) e, se quiserem ou puderem, comida/bebida para partilhar (e aquecer a alma, como diz um amigo meu...) e meios de observação astronómica (mapas, binóculos, telescópios, etc).
Agradece-se a divulgação deste evento...
Link para o CARTAZ - AQUI.
quinta-feira, 15 de novembro de 2007
Chuva de estrelas deste fim-de-semana
Neste momento a Terra cruza a órbita do Cometa Tempel-Tuttle e são os restos deste cometa os responsáveis pelo enxame de estrelas que decorre anualmente entre 14 e 20 deste mês, o enxame das Leónidas.
As noites de 17, 18 e 19, são as datas de máxima intensidade desta chuva. O número de estrelas cadentes observado por hora não é muito elevado, mas há boas esperanças que, pelo facto de o cometa ter passado pelo Sol há pouco tempo, haja este ano um aumento significativo de meteoros.
Os apaixonados por este tipo de fenómenos, e os curiosos em geral, poderão nas próximas noites perder algumas horas de sono para apreciar este belo espectáculo.
Os cálculos mostram que em Portugal a observação do pico das Leónidas, será na madrugada do próximo dia 18 de Novembro de 2007, domingo, pelas 02.46 horas muito antes da alvorada. Só nos resta esperar boas condições meteorológicas
O nome deste enxame resulta de os traços das suas estrelas cadentes nos parecerem sair dum ponto da constelação do Leão (o radiante). Como esta constelação só começa a nascer lá para a meia-noite, as observações deverão iniciar-se na 2ª metade da noite.
Conselhos: ir para um local escuro, fora das luzes dos centros populacionais, com um horizonte desimpedido; esperar que os olhos se habituem à obscuridade (cerca de 15 minutos); ir agasalhado e, para maior comodidade, levar uma cadeira (do tipo de cadeira de bordo ou de praia) para poder olhar bem para o alto.
Se o céu se apresentar límpido terá uma maravilhosa visão do céu... Ver-se-á Saturno (mesmo na constelação do Leão) e as maravilhosas estrelas e constelações de Inverno já aparecerão em todo o seu esplendor: Aldebarã e as Pleiades do Touro, a linda Capela muito alta, a brilhante Sirius, Procyon, os Gémeos Castor e Polux, e baixa, a estrela Arcturus.
Não oferecendo perigo para a Terra, estes meteoros poderão eventualmente danificar os inúmeros satélites, científicos e de comunicações, que orbitam a Terra.
Para obter mais informação sobre os "Enxames de Meteoróides" consulte no nosso site a página Almanaques/Outros elementos
Para ver uma imagem que representa o céu às 03h na madrugada do dia 18 de Novembro, consulte:
http://www.oal.ul.pt/index.php?link=destaque&id=88
segunda-feira, 12 de novembro de 2007
Cometa 17P/Holmes
A cabeleira está maior, embora a sua magnitude tenha descido.
Isto é: perdeu intensidade, o seu brilho. Na carta celeste que mostramos, cortesia da revista de astronomia Sky and Telescope, mostramos a sua localização. Deve-se olhar para os céus altos na direcção de noroeste. Como ponto de referência procurar a constelação Cassiopeia, que é bem visível pois as suas estrelas parecem formar um W. Aproveitar este fim de semana, ao cair da noite, antes que a Lua venha por aí, de novo, a estragar tudo...
Post roubado ao Blog Astronomia-Algarve, de Vieira Calado.
sábado, 10 de novembro de 2007
Dia Mundial da Ciência ao Serviço da Paz e do Desenvolvimento
Hoje, dia 10 de Novembro, é o Dia Mundial da Ciência ao Serviço da Paz e do Desenvolvimento. Em Lisboa a Unidade Ciência Viva assinala a data do modo que vimos no post anterior - o lançamento do Ano Internacional do Planeta Terra.
Para assinalar o dia vamos publicar um texto do jornal on-line Ciência Hoje:
Dia Mundial da Ciência ao serviço da Paz e do Desenvolvimento
2007-11-09 - por Maria Inês Fernandes *
Sonhei que a Terra sorria e quis descobrir porquê.
Liguei a televisão - conheces forma mais rápida de saber as notícias? Claro que os jornalistas, sedentos de notícias estrondosas e incríveis, não deixariam de mostrar uma peça sobre a Terra a sorrir, pensei. Qual não foi o meu desapontamento quando verifiquei que: nem uma linha, nem uma imagem... nada sobre o assunto!?
Já me preparava para desligar o aparelho, com aquela centelha de confiança renovada na Humanidade apagada, triste por, mais uma vez, descobrir que os sonhos não espelham a realidade - e este que valia tanto a pena! - quando reparei numa coisa estranha: as notícias não eram as desgraças habituais, os assaltos, as fomes, as guerras, as discussões estéreis e falaciosas dos políticos, futebol...
Os cientistas de todo o Mundo tinham-se reunido e feito um juramento solene por aquilo que cada um mais amava - uns diziam: «Juro por Deus», outros: «Juro pela Humanidade», outros: «Juro pelos meus filhos», outros ainda: «Juro pela minha conta bancária»... - de apenas usarem, venderem, difundirem, invenções e descobertas que promovessem o Homem e o ambiente, pondo como condição o depor das armas de guerrilheiros, soldados, mercenários, militares… e o compromisso de cada Homem de fazer fora o que gosta de ver naquilo que é seu: limpeza, gastos de água, gás e luz mínimos, comida na mesa, jardins e/ou quintais cuidados... e por aí fora, imagina. Bonito, não é?
Primeiro fizeram-se esquerdos, mas os cientistas, por seu lado, fizeram finca-pé e, assim, como não havia armas para usar, químicos à solta, poluentes a flutuar em terra, rios e mares, manipulações genéticas de plantas e animais... acabaram por ser o exemplo vivo do ditado que diz «se não os podes vencer, junta-te a eles», renderam-se e arregaçaram as mangas para dar início à construção desse novo Mundo, nessa operação de uma Terra de cara lavada, se assim o quiseres.
Então, que aconteceu? Tudo o que possas imaginar que aconteceria se a Ciência e a Paz dessem as mãos. Consegues? E, então, achas que não era motivo para a Terra sorrir?
Mas, como nada na vida é como nós o idealizamos, a probabilidade de isso acontecer é… quase improvável! Pelo que nos cabe fazer a nossa parte. Tu podes pensar: «Mas isso é um grão de areia num deserto»; e eu contraponho: «Pensa antes: "Água mole em pedra dura tanto bate até que fura" e acrescento: «Como Gandhi dizia: "Acreditar em algo e não o viver é desonesto", eu diria mais: Quem faz o que nos outros critica é mais do que hipócrita, é viver com um estranho desprezível dentro de nós. Quem quer viver assim?».
Também diziam que era impossível fazer o que Gandhi fez, certo? Então, mais não digo...
ND - Inês Fernandes respondeu ao convite dirigido aos leitores de Ciência Hoje para escreverem sobre este dia. Os textos e opiniões nele expressos são da responsabilidade dos seus autores.
*Profissão: Assistente Administrativa; Formação Académica: Curso Superior de Línguas e Secretariado e Licenciatura em Sociologia; Não fundamentalista, mas pela Paz, pelo respeito por outras crenças e diferentes culturas; não feminista, mas pela Humanidade; citadina, mas pelo respeito pela Natureza...
quinta-feira, 8 de novembro de 2007
A Terra, 4600 milhões de anos depois...

como utilizar os recursos da Terra? Haverá diferenças entre a qualidade do ar que respiramos em casa e na rua? Sabia que o óleo que usa para fritar batatas pode ser reutilizado para fabricar sabão?
No próximo Sábado, dia 10 de Novembro, os especialistas que o vão esclarecer sobre estes temas no Pavilhão do Conhecimento - Ciência Viva não têm mais de dezoito anos. Vêm de diferentes pontos do país para apresentar os seus projectos Ciência Viva perante um painel de cientistas e animar o debate com o público.
Às 16 horas, decorre a sessão oficial de lançamento do Ano Internacional do Planeta Terra (AIPT) em Portugal, com a participação do Director Executivo do AIPT junto da UNESCO-IUGS, Eduardo de Mulder, e do Presidente da Comissão Nacional da UNESCO, Fernando Andresen Guimarães.
Para além de colóquios com investigadores em que poderá ficar a saber se há petróleo em Portugal e conhecer quem nos protege dos riscos sísmicos, o programa inclui ainda exposições, stands de projectos realizados por escolas dos ensinos básico e secundário, módulos interactivos e ateliês.
Os momentos musicais do evento estarão a cargo de Pedro Abrunhosa e de Luísa Amaro, a partir das 18 horas.
O lançamento do AIPT em Portugal será um evento CarbonoZero, pelo que irão ser contabilizadas as emissões de gases com efeitos de estufa para posterior compensação em reflorestação.
Se quiser começar desde já a contribuir para um planeta verde, deixe o carro em casa e no Sábado vá a pé ou de bicicleta até ao Pavilhão do Conhecimento - Ciência Viva. E se quiser pôr a sua condição física ainda mais à prova, experimente escalar a parede com dez metros de altura que nesse dia estará no exterior deste centro de ciência.
A entrada é livre e todo o evento será transmitido em directo pela Internet em http://www.cienciaviva.pt/.
A Assembleia-geral das Nações Unidas proclamou o ano de 2008 como o Ano Internacional do Planeta Terra. Durante doze meses, o conhecimento sobre o potencial das Ciências da Terra e o seu contributo na vida dos cidadãos e na salvaguarda do nosso planeta estará por isso na ordem do dia em todo o mundo.
Tudo para que possamos continuar a contar com o Planeta Terra por mais uns milhões de anos.

SETI@home - procurar ET's inteligentes em casa...

Sismo em Portugal
domingo, 4 de novembro de 2007
Cometa 17P/Holmes - uma foto...
Post publicado originalmente pelo Blog AstroLeiria.
segunda-feira, 29 de outubro de 2007
sábado, 13 de outubro de 2007
Escola Correia Mateus no GoogleMaps...!
- as opções Map (mapa), Sat (Satellite - fotografia área) e Hyb (Hybride - fotografia área com alguns aspectos marcados);
- a Escala (entre o + e -);
- a mudança da área visível (usar as setas ou o rato do PC - que aparece com aspecto de mão dentro do mapa - para mudar de localização visível).
segunda-feira, 8 de outubro de 2007
sábado, 6 de outubro de 2007
As aventuras de um paleontólogo no Deserto do Gobi
Diário do deserto entre areia e esqueletos de dinossauros
Octávio Mateus partiu a 20 de Agosto numa expedição. Durante 34 dias, no deserto de Gobi, o paleontólogo teve o seu quinhão de felicidade e escreveu um diário do qual agora publicamos excertos.
Octávio Mateus partiu a 20 de Agosto numa expedição. Durante 34 dias, no deserto de Gobi, o paleontólogo teve o seu quinhão de felicidade e escreveu um diário do qual agora publicamos excertos.
FASE I DA EXPEDIÇÃO:
Em Shine Us Khuduk, Deserto de Gobi (Sudeste da Mongólia).
Era o 3.º dia de escavação, a 23 de Agosto de 2007, e os grãos de areia bombardeavam-nos a 90 km/h como microprojécteis, acertando na pele exposta como se de pequenas agulhas se tratasse. Enfrentávamos uma forte tempestade de areia que tornava mais difícil a concretização do nosso principal objectivo: escavar dinossauros encontrados pela nossa expedição paleontológica.
Apesar da tempestade de areia, que durou todo o dia, a escavação dos dinossauros continuou, uma vez que tínhamos de aproveitar todos os momentos de uma expedição científica de apenas 34 dias na Mongólia. (...)
A nossa expedição chama-se “Korea-Mongolia International Dinosaur Project” (...) e tinha dois principais objectivos: conhecer mais dados sobre o período Cretácico (144 a 65 milhões de anos) e descobrir novos esqueletos de dinossauros. Fomos bem sucedidos!
Cada dia era uma aventura surpreendente, sempre com novas descobertas ou peripécias imprevistas. À noite, reunidos na tenda maior, de tipo militar, mostrávamos e catalogávamos as descobertas do dia, identificávamos os ossos mais intrigantes ou discutíamos questões científicas que se iam levantando e que nos assolavam.
Pessoalmente, eu tinha dois grandes objectivos: aprender mais sobre os dinossauros da Mongólia e descobrir novos esqueletos, nomeadamente de dinossauros saurópodes e de terizinossauros. Os primeiros são os clássicos gigantes de pescoço comprido, que podiam atingir 30 toneladas de peso e aos quais tenho dedicado parte da minha carreira. Os saurópodes são pouco conhecidos na Mongólia, logo, qualquer nova descoberta tinha o potencial de vir a ser importante. Quanto aos outros, os terizinossauros, tenho uma curiosidade natural sobre eles, pois são um dos tipos de dinossauros mais estranhos que jamais existiram. Embora dentro do grupo dos dinossauros carnívoros bípedes (os terópodes), tal como o Tyrannosaurus rex ou o Allosaurus, estes raros terizinossauros são invulgarmente enigmáticos e bizarros.
Numa abordagem completamente não científica, alguém poderia descrevê-los como um cruzamento entre um T. Rex, um urso e um peru com enormes garras nas patas dianteiras. Quando o primeiro terizinossauro foi descoberto os ossos eram tão estranhos que os paleontólogos julgaram tratar-se de uma tartaruga gigante. (...)
A verdade é que sabemos muito pouco sobre estes estranhos animais. Conhece-se a morfologia de alguns ossos, a idade geológica em que viveram, mas desconhece-se o habitat, alimentação, comportamento, reprodução e muito mais. Por isso, qualquer novo achado poderá, potencialmente, trazer alguma luz sobre os terizinossauros.
Quando o paleontólogo coreano, e principal organizador da expedição, Yuong-Nam Lee trouxe um fémur (um osso da coxa), descoberto naquele dia, ninguém conseguiu compreender de que dinossauro se tratava. A morfologia era diferente de tudo aquilo a que estávamos habituados, o que me levou a pensar que poderia ser de um tão desejado terizinossauro. Assim era. E parece ter pormenores inteiramente novos, pelo que pode ser de uma nova espécie desconhecida até à data ou de uma espécie já descrita cujo fémur não conhecíamos. Esta abordagem verificou-se eficaz: cada vez que encontrávamos um osso de dinossauro terópode diferente daquilo a que estávamos habituados, verificávamos tratar-se, em alguns dos casos, de terizinossauros. Eu descobri partes do crânio, vértebras e ossos dos membros. O sedimentólogo canadiano David Eberth descobriu uma jazida com parte de um esqueleto. Recolhemos alguns dos ossos, incluindo partes da enorme garra, mas outros ficaram no terreno porque não tivemos tempo para escavar tudo. Voltaremos para o ano. Entretanto, temos achados suficientes para contribuirmos para o conhecimento destes animais e para fazermos bons estudos científicos. Eu estava contente: novos ossos e partes de esqueletos de terizinossauros, saurópodes e de muitos outros dinossauros. A Mongólia é um ‘El Dorado’ da Paleontologia.
FASE II DA EXPEDIÇÃO:
De Shine Us Khuduk até Khermeen Tsav (Oeste de Gobi)
Ao mudarmos de local de acampamento, do Leste de Gobi para o Oeste, aventurámo-nos novamente pelo deserto, onde peripécias e imprevistos podem ocorrer a qualquer momento. A nossa caravana, de seis viaturas, fez uma travessia lenta, de seis dias, pois sofriam constantes avarias e tinham frequentemente pneus furados. Dois lentos e antigos camiões soviéticos traziam todo o equipamento e víveres necessários às duras condições no deserto(...). As raras estradas existentes no deserto são, na verdade, caminhos e trilhos de terra, mas o seu uso contínuo dá-lhes o epíteto de “estrada nacional”, com direito a numeração e a figurar na maioria dos mapas da Mongólia, até mesmo na escada de 1:2.000.000. (...)
Khermeen Tsav, o segundo local de acampamento e escavações, é o local mais remoto onde eu já alguma vez estive. (...) Magníficos canyons de cor avermelhada estendem-se a perder de vista e todos aqueles afloramentos de rocha são um convite à descoberta de dinossauros. A 54 quilómetros de distância encontrava-se o primeiro ser humano, que habitava numa ‘ger’, uma tenda circular tradicional, e a primeira povoação era uma pequena cidade que estava a cerca de 150 km. A comunicação com o mundo exterior fazia-se através de emissores-satélite. (...)”
PORTUGUÊS DA SEMANA
Octávio Mateus, paleontólogo, doutorado pela Universidade Nova de Lisboa, filho dos co-fundadores do Museu da Lourinhã, foi o Português da Semana na Domingo, na edição de 19 de Agosto, em vésperas de partir para esta expedição
ROY CHAPMAN ANDREWS
Entre 1922 e 1930, Roy Chapman Andrews – inspirador da personagem de Indiana Jones – levou a cabo missões de investigação no deserto de Gobi, na Mongólia. Em 2007, durante 34 dias, o português Octávio Mateus integrou uma missão internacional – pelo contingente norte-americano, de 15 pessoas – em que participaram ainda japoneses, sul-coreanos e mongóis
OSSOS DE MATEUS
“Eu descobri uma bone-bed, termo usado pelos paleontólogos para designar uma camada repleta de ossos com pelo menos 8 indivíduos de anquilossauros, um dinossauro herbívoro couraçado, e de onde recolhemos três crânios completos. A grande quantidade de ossos fez-nos deixar muitos deles no terreno. (...): identificámos dezenas de pegadas e recolhemos ovos, cascas de ovo e vários ninhos, entre os quais um ninho de dinossauro carnívoro Oviraptor, com ossos de embrião (...). Encontrámos e recolhemos, ainda, ossos de Tarbosaurus (o “primo asiático” do Tyrannosaurus rex), anquilossauros, protoceratops, ornitomimossauros (incluindo um bebé), e muitos outros achados (...).”
in Correio da Manhã - ver notícia
quinta-feira, 4 de outubro de 2007
Sputnik - 50 anos...!
Sputnik, o satélite politicamente incorrecto
Faz amanhã (HOJE) 50 anos que «arrancou» a conquista do espaço
Por Nuno Crato *
Tinha eu cinco anos quando ouvi um nome novo e curioso: «Sputnik». Não me lembro desse momento, porque de pouco ou nada me lembro dessa altura, mas sei que anos depois a palavra mágica continuava a ser ouvida. E as conversas eram estranhas. O meu pai explicara-me que se tratava de um satélite artificial da Terra. O primeiro. E que tinha sido lançado pela União Soviética, uma país distante e misterioso que se identificava com «a Rússia», aquele lugar de que se falava a propósito de uma estação de rádio que era proibido escutar, dos pastorinhos de Fátima e de muitas outras coisas. Sabia-se, por exemplo, que Salazar não gostava da Rússia e, por isso, ao falar do Sputnik falava-se mais baixo e olhava-se à volta. Para mim, que era muito miúdo, era tudo um jogo misterioso.
Falava-se também de um professor universitário português que tinha dito que o Sputnik não existia, que era uma arma de propaganda comunista, pois era cientificamente impossível haver um satélite artificial da Terra. De repente, deixou de se falar desse professor universitário, pois os Estados Unidos tinham também colocado um satélite no espaço.
Anos mais tarde, muitos anos mais tarde, tentei reconstituir o que se passara. Ao que parece, o professor universitário não era um, mas sim dois: um em Lisboa e outro no Porto. Este último foi durante muitos anos alvo de chacota por parte dos seus alunos. O primeiro penso que também. Nunca consegui, no entanto, esclarecer completamente o que se passara. As lendas abundam, mas nomes concretos, declarações, registos, documentos, tudo isso falta.
E gostaria de esclarecer o que se passara pois creio que o episódio foi revelador e sintomático. Face aos progressos científicos de outros países respondia-se com desdém. E o desdém não era só dirigido «à Rússia». Era dirigido também aos Estados Unidos da América, país pelo qual Salazar nunca morreu de amores. Só alguns anos mais tarde percebi por que os progressos científicos dos norte-americanos eram também desdenhados.
Foi preciso passarem 12 anos. Lembro-me de ter visto na televisão imagens confusas de algo muito mais arrojado do que um satélite. Estava na praia do Baleal e a televisão existia no nosso país há poucos anos. Pouca gente a tinha. O aparelho onde vi as imagens estava num café cheio de gente. Tão cheio que era difícil aproximar-mo-nos do écran. Lembro-me que os meus pais estavam em Lisboa nesse dia. Como não tinham televisão, foram à Baixa, onde havia aparelhos a funcionar nas vitrines das lojas. Foi daí que viram as mesmas imagens que eu estava a ver. Imagens trémulas, pois tinham viajado 384 milhares de quilómetros. Era 20 de Julho de 1969. As imagens mostravam Neil Armstrong a pisar o solo da Lua.
Lembro-me de amigos dos meus pais acharem toda essa curiosidade e todo esse entusiasmo despropositados. Afinal, quem tinha aparecido na televisão eram americanos. Só teriam ido à Lua por dinheiro e despeito. Os russos tinham estado sempre à frente na corrida ao espaço, diziam, e os norte-americanos apenas tinham conseguido sucessos na fase final...
Nunca percebi muito bem como era possível que pessoas inteligentes pudessem rejeitar avanços científicos e tecnológicos. Como era possível haver professores universitários que escondessem a cabeça na areia dizendo que o Sputnik não existia?! E como era possível não se estar emocionado com a chegada do homem à Lua?! É de facto estranho, mas revela uma atitude que persiste. Ainda há poucos anos se ouviram intelectuais portugueses a protestar com a exploração de Marte.
Vou prosseguir a minha história. Passados outros tantos anos, fui estudar para os Estados Unidos, país que na altura não me fascinava especialmente, mas de onde regressei, quase 15 anos depois, completamente seduzido. Aí percebi o que se tinha passado depois do Sputnik. Ao contrário de esquecer a sua existência, os norte-americanos reagiram sacudindo a fundo a sociedade.
Em todo o lado se pensara em mudança. Começando no ensino. Reviram-se os programas, criaram-se escolas de elite, estreitaram-se as relações entre o ensino superior e o pré-universitário, estimularam-se programas de investigação. Preparou-se uma nova geração para a ciência. O Sputnik de 1957 criou ondas de choque que se propagaram até ao sucesso do programa Apolo de 1969.
No meio disto há um pequeno facto histórico pouco notado. O Sputnik russo foi lançado em Outubro de 1957. O primeiro satélite norte-americano foi colocado no espaço em Janeiro de 1958. Três meses mais tarde. Apenas três meses. Isso explica por que razão os críticos portugueses do Sputnik se calaram. E leva a pensar nas origens da «onda de choque» que se propagou pelos Estados Unidos. O «efeito Sputnik» foi consciente. Havia a vontade de mudar, e o satélite russo não foi mais que o pretexto.
Apesar de mudanças brutais e de progressos imensos desde o Portugal salazarista de 1957, vivemos hoje uma situação que tem alguns paralelos com a dessa época. Continuam a existir responsáveis políticos que pouco se preocupam com o nosso atraso científico. E continuam a existir académicos que o negam ou subestimam.
É certo que existem hoje muitos jovens cientistas que se destacam no panorama internacional e que orgulham o país. É certo que começam a aparecer nomes portugueses citados na imprensa internacional. É certo que se podem hoje ler nomes de universidades e institutos de investigação nacionais em artigos na Science, na Nature ou noutras revistas internacionais onde a nossa presença era, ainda há pouco, praticamente inexistente. O facto orgulha-nos, mas, tal como o Sputnik, pode levar-nos a duas atitudes opostas. E a realidade é que a ciência portuguesa continua numa situação de atraso relativo entristecedora. Tudo o que dissemos sobre os nossos progressos podem muitos países semelhantes ao nosso, em dimensão, desenvolvimento, cultura e produto económico, dizê-lo com cem vezes mais propriedade. Há ainda muito a fazer. Muitíssimo. Aprendemos alguma coisa com o Sputnik?
*Professor de Matemática e Estatística no Instituto Superior de Economia e Gestão, Lisboa, actual Presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática.
Este texto foi extraído e ligeiramente adaptado (pelo próprio autor) de «Ciência em Portugal: os próximos 30 anos» publicado na colectânea 25 de Abril: Os Desafios para Portugal nos Próximos 30 Anos, Presidência do Conselho de Ministros, Comissão das Comemoração dos 30 Anos do 25 de Abril, Lisboa 2004
in Ciência Hoje - ver notícia
quinta-feira, 27 de setembro de 2007
Vulcão dos Capelinhos - 50 anos!
sábado, 22 de setembro de 2007
Eclipses em 2008
Depois de, em 2007, termos tido 4 Eclipses (dois, totais, da Lua e dois, parciais do Sol), com apenas um da Lua (de 03.03.207) visível em Portugal, este ano que se aproxima terá também 4 Eclipses, dois do Sol (um Total e um Anular) e dois Lunares (um Total e um Parcial), mas com os dois lunares visíveis em Portugal, a saber:
1. Eclipse Anular do Sol (8 de Fevereiro de 2008)
Não será visível em Portugal (apenas se verá em parte dos territórios da Austrália e Antárctida e na totalidade do território das nossas antípodas - a Nova Zelândia).
2. Eclipse Total da Lua (21 de Fevereiro de 2008)
A Lua Nova de Fevereiro (14 dias depois de uma Lua Cheia com Eclipse) trazer-nos-á um Eclipse, totalmente visível no nosso território, bastante longo e interessante.
3. Eclipse Total do Sol (1 de Agosto de 2008)
Aproximadamente meio ano após os últimos eclipses, surge uma nova estação de eclipses, começando na primeira Lua Nova de Agosto com um eclipse não visível em Portugal. Observável na Europa (excepto na Península Ibérica e sul de Itália), em parte da Gronelândia, do Canadá e da Ásia (Rússia e China, entre outras), será um acontecimento de Verão muito falado e levará muitas pessoas a viajarem até aos locais onde é total.
4. Eclipse Parcial da Lua (16 de Agosto de 2008)
O último do ano será parcialmente visível no nosso país (só a parte inicial, pouco interessante, não se verá) e tapará a quase totalidade da Lua. Ocorre, como sabemos, na Lua Cheia, quando a Lua passa pela projecção da sombra da Terra (estando Sol, Terra e Lua quase perfeitamente alinhados).
Vulcão dos Capelinhos - 27.09.1957
domingo, 16 de setembro de 2007
A Comida e a Escola
Citemos alguns aspectos importantes, no Livro de Apoio:
A oferta alimentar em contexto escolar: o que muda sob o ponto de vista nutricional?
Conforme já referido anteriormente, este referencial é um primeiro documento, entre outros, mais específicos, que serão produzidos, designadamente para os refeitórios.
No entanto, por agora, centra-se a atenção sobre a influência dos bufetes escolares na alimentação equilibrada dos alunos e restante comunidade, que é por demais evidente e inquestionável.
Qualquer indivíduo não deve passar mais de três horas e meia sem comer; por motivos evidentes de desenvolvimento e de apropriada disponibilidade energética para o adequado rendimento cognitivo, os alunos devem respeitar esse horário.
Neste sentido, os bufetes escolares são espaços de capital importância, pois são locais onde os jovens podem encontrar géneros alimentícios.
É necessário que as escolas e a comunidade educativa estejam esclarecidas sobre qual o tipo de géneros alimentícios que, de acordo com o seu valor nutricional, deve ser ou não promovido e qual o tipo de géneros alimentícios que não deve ser disponibilizado em meio escolar.
Não se pode afirmar categoricamente que há “maus alimentos”, mas há sem dúvida alimentos que, pelas suas características nutricionais, não devem ser de livre acesso num local educador e promotor da saúde como é a escola.
Face às particularidades do desenvolvimento físico, intelectual e emocional da população em causa, o fácil acesso a alimentos que, pelas suas especificidades, são indutores ou facilitadores da obesidade, deve ser dificultado ou mesmo evitado.
É neste sentido que o Ministério da Educação pretende clarificar quais os géneros alimentícios que devem:
- ser promovidos em contexto escolar;
- ser limitados no seu consumo em contexto escolar;
- ser indisponibilizados num bufete escolar.

- Leite meio-gordo/magro, simples ou aromatizado, sem adição de açúcar e leite escolar;
- Iogurtes e outros leites fermentados, sem adição de açúcar, meio-gordo/magro, dando preferência àqueles com menor teor em lípidos e edulcorantes;
- Batidos de leite com fruta fresca ou congelada, sem adição de açúcar;
- Sumos de fruta: naturais e/ou comerciais “100% sumo”, sem açúcares e/ou edulcorantes adicionados;
- Bebidas que contenham pelo menos 50% de sumo de fruta e/ou vegetais sem açúcares e/ou edulcorantes adicionados;
- Água potável, da rede pública ou engarrafada;
- Diferentes tipos de pão, feito a partir de farinhas pouco refinadas, isto é, mais escuras e com pouco sal (ex: pão de mistura, pão de centeio, sêmea…) simples ou adicionado de:
- Queijo meio-gordo/pouco-gordo/magro fresco, curado e fundido
- Ovo cozido;
- Carne de aves e mamíferos (frango, peru, porco, vaca,…) cozidas ou assadas ;
- Atum ou outros peixes de conserva, preferencialmente conservado em água ou azeite;
- Fiambre, preferencialmente, de peru ou frango, escolhendo aqueles com baixo teor em lípidos e retirando sempre qualquer gordura visível;
- Fruta fresca da época, em peça, em salada, ou ainda em batidos de leite (ex: laranja, tangerina, kiwi, maçã, pêra, pêssego, morangos, cerejas, melão, meloa, melancia, banana…);
- Produtos hortícolas diversos sob a forma de saladas, disponíveis em doses individuais (por exemplo: alface, tomate, cenoura, pepino, couve branca, ou ainda feijão, grão, nozes, avelãs, passas de uva…).
- Rissóis, croquetes, pastéis de bacalhau e produtos afins;
- Pastéis e bolos de massa folhados, frigideiras, chamuças e produtos afins, incluindo pré-congelados de massa folhada com elevados teores de lípidos e/ou açúcares;
- Chouriço, salsicha, fiambrino, mortadela, linguiça…, entre outros produtos de charcutaria ricos em lípidos e sal;
- Maioneses, ketchup, condimentos de mostardas e outros molhos;
- Refrigerantes, incluindo as bebidas com cola, ice tea, águas aromatizadas;
- Preparados de refrigerantes;
- Bebidas energéticas e bebidas desportivas;
- Gelados de água;
- Marmelada, geleias e compotas com teor de açúcares superior a 50%;
- Rebuçados, caramelos, chupas, pastilhas elásticas e gomas;
- Tiras de milho, batatas fritas, aperitivos e pipocas doces ou salgadas;
- Hambúrgueres, cachorros quentes e pizzas;
- Cerveja sem álcool;
- Chocolates em embalagens superiores a 50 g.






